sábado, 9 de fevereiro de 2013

Faltam-me as palavras

Giovanni Auriemma - 1

Faltam-me palavras. Deixei-as na gaveta, atrás do mundo, dentro de paredes. Sem chave, sem nada. Onde todos podem ler, exposto, num só olhar. Num curto-circuito. Metafórico. Um olhar que diz tudo. As minhas palavras agora falam de homocisteína, de doença vascular, aconselham um antigripal, fazem perguntas constrangedoras. As minhas palavras agora escrevem cartas de motivação. E esperam resposta. As palavras que dizia, faltam-me. As palavras que me definem, faltam-me. Falta-me a imaginação. As frases que podem estar soltas. As palavras que podem não fazer sentido. Ou fazer todo o sentido. Só para mim. Sem ligação. Sem abstract. Ou conclusão. Palavras. Só por si palavras. Doce. Teu. Orelha. Sonho. Vida. Saudade. Palavras soltas. Minhas. Nossas. Minhas. Verbos. Repetições. Saudades de repetições. De terapia de blog. De não ter medo de escrever. Das palavras saírem-me dos dedos. Sem pensar. E fazerem sentido. Palavras minhas. Na minha língua. Nas minhas linhas. Uma diarreia criativa. Que não precisa de probioticos. Palavras. Minhas. Sem uma. Sem duas assinaturas. Sem genéricos. Palavras ditas no palco. Palavras escritas no papel.
E quando finalmente paro para escrever. As minhas palavras. Com as minhas pontuações. E o meu toque. A minha marca. O meu Eu. Aí, percebo! Não me tiraram as palavras. Não me tiraram os sonhos. É assim. Com efeito, quando a noite está fria, quando eu estou doente, no escuro do quarto, enrolado numa mantinha da ratiopharm, sozinho! Só me restam as palavras.

Amadeu Mendes

Imagem de Giovanni Auriemma

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