domingo, 27 de outubro de 2013

A morada

 

Cores ao Quadrado

Constroem-se mansões, grandes moradas.
Mil jardins floridos, palácios.
Cuida-se de tudo, pensa-se em tudo.
Da minha morada, queria dizer...
Habitação maior,
Nela vive minha alma.
Minha casa nobre, que em nada é pobre.
Antes sim, espelhos tivesse,
Refletiriam luzes ofuscantes.
De branco brilhante,intenso
Violeta admirável, arrebatador do meu ser,
Próspero, em elevada espiritualidade.
Intenso vermelho, rubro como carmim,
cor do meu sangue e da minha sensualidade.

Tênues e admiráveis semblantes,
Transparências de azul cristalino.
Amarelo dourado, cor da minha doçura,
Representante da minha candura.
Prata, quase anil, vivacidade infantil.
Rosa de exuberante ingenuidade,
Mas de incontida alegria vivaz
Nuances de verde matriz, delirantemente excêntrico.

Se alguém pudesse ver minha morada
E toda a sua estrada,
Veria as cores dos meus sentimentos.
De jardins encantados, cheirando a cravos.

De flores exóticas, de relva mansa.
Com pássaros silvando.
Cantando todos os sonhos meus,
Não tenho vergonha de ninguém
Porque na minha casa tem:
um "sonhador".

Rosy Beltrão

Convivendo com as diferenças

É comum duas pessoas combinarem em vários aspectos: gostar de estar juntas, ter um ótimo sexo, pensar e sentir da mesma forma sobre questões importantes da vida. No entanto, algumas divergências de interesse ou gosto podem atrapalhar bastante ou até inviabilizar a relação. Quanto menos dependência houver entre o casal, mais fácil será encontrar um caminho para conviver com as diferenças. Além disso, a forma como as pessoas são afetadas por elas é decisiva para o desenrolar da vida a dois. Alguns não se incomodam de ceder: o que para um é fundamental, pode não ter muita importância para o outro. Mas nem sempre é assim.

Se num casal um dos parceiros adorar ir à praia e o outro detestar? Como se resolve esse impasse? O que gosta abre mão do seu prazer ou o que odeia praia vai sem vontade e fica infeliz, de mau humor? Esse caso não é nada complicado para casais que prezam a liberdade e não se propõem a viver uma relação simbiótica. Quem gosta de praia vai à praia. Quem não gosta escolhe qualquer outra coisa para fazer. Depois os dois se encontram. Aliás, para quem tem uma relação estável, oportunidade para isso é o que não falta.

Entretanto, existem situações bem mais difíceis de se chegar a um acordo, e o prazer da convivência pode ficar comprometido. Resolvi fazer um levantamento sobre essa questão, consultando 30 pessoas. Perguntei a cada uma o que, para ela, tornaria impossível uma vida a dois, por mais que amasse a outra pessoa. Estas foram algumas das respostas obtidas:

"Não poderia conviver com uma mulher que fumasse. Tenho alergia, além de odiar o cheiro."

"Adoro almoçar feijoada aos sábados e não vivo sem carne vermelha. No café da manhã tomo coca-cola todos os dias. Já pensou ter que agüentar o olhar de censura de um marido vegetariano fanático?"

"Adoro esportes e vida ao ar livre. Andar de bicicleta, correr na praia, nadar, velejar. Nunca poderia conviver com uma mulher preguiçosa, paradona."

"Detesto ir a bares e dormir tarde. Faço ginástica todos os dias às seis da manhã. Não agüentaria um homem que fosse da noite e gostasse de beber."

"O que mais gosto de fazer é receber os amigos e conversar até de madrugada. Nunca me relacionaria com um homem que não gosta de gente em casa, que adora ficar no silêncio."

"Detesto dançar e ouvir música alta. Meu último namoro terminou por causa disso. O único programa que ela queria fazer era exatamente sair para dançar!"

O que fazer, então, quando as pessoas se gostam, sentem tesão uma pela outra, mas são incompatíveis como as citadas acima? Para começar, não existe um único modo de relação amorosa. Pelo contrário, são inúmeras as formas de se ter uma vida afetiva e sexual com outra pessoa. A grande saída é estabelecer com o outro um tipo de vínculo em que os dois só se encontrem quando sentirem vontade e façam apenas o que ambos desejarem.
Será que vai demorar muito para chegar o dia em que cada um de nós terá vários parceiros? Um para ir ao teatro, outro para viajar, aquele para dançar, o especial para o sexo, claro, e assim por diante. Tenho forte intuição de que todos vamos viver muito mais alegres e satisfeitos.

Regina Navarro Lins

Amar duas pessoas ao mesmo tempo

Desde que nascemos, muitas coisas nos são ensinadas como verdades absolutas. Todos os meios de comunicação participam ativamente - televisão, cinema, teatro, literatura, rádio -, sem contar a família, a escola, os vizinhos. O condicionamento é tão forte que crescemos sem perceber que aprendemos a pensar assim ou a desejar uma ou outra coisa. Isso ocorre em todas as áreas, portanto, também no que diz respeito ao amor. As regras sobre o que é amar ou ser amado por alguém são muitas. Se você sentir isso, não é amor. Agora, se sentir aquilo, aí sim, é amor. Às vezes escutamos alguém dizer: "Se estiver me relacionando com uma pessoa e sentir desejo por outra, é porque, então, não a amo." Ou "Quem ama quer ficar o tempo todo ao lado da pessoa amada, nada mais lhe interessa." Felizmente nada disso é verdade.

No entanto, essas afirmações há muito são repetidas sem ser contestadas. E não é sem razão. Em primeiro lugar o ser humano parece não desenvolver muito sua capacidade de pensar e só repete. É mais fácil. Depois, as pessoas acreditam que ficar sem alguém ao lado para se protegerem é uma tragédia. Dessa forma, tratam de se convencer e ao parceiro de que as coisas são desse jeito mesmo, achando que assim evitam correr riscos. E vão limitando a própria vida e a do outro. É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? Sem dúvida, é possível amar bem mais de duas. Acontece até com freqüência, mas ninguém quer aceitar para si mesmo. Afinal, fugir dos modelos impostos gera ansiedade, o desconhecido apavora. Então, surge aquela desculpa esfarrapada: "É possível amar duas pessoas, mas não do mesmo jeito." É exatamente o que ocorre com a fidelidade. Em público todos negam, mas praticam em particular.

É difícil se aceitar que o amor é um afeto único. Mas amor é um só. É prazer na companhia, querer bem, participar da vida do outro, sentir saudade. Nós é que insistimos em dividir em compartimentos, classificando os tipos de amor: por filho, por namorado, por mãe, por amigo, por amante, como se fossem diferentes na essência. De singular e que podem distingui-los uns dos outros são só algumas características. No amor pelo amigo pode não haver desejo sexual, no amor pelo filho costuma predominar um desejo de proteção, e assim por diante. Portanto, podemos amar mais de um, no sentido mesmo do amor que encontramos no namoro ou casamento. Somos todos diferentes, cada um possuindo aspectos que agradam e que se buscam num relacionamento.

Pode até ser que na fase da paixão, quando se está encantado pelo outro, não caiba mais ninguém. Mas essa fase dura pouco. Com uma convivência mais prolongada, a paixão acaba e fica o amor, se houver. De qualquer modo, não parece muita mesquinharia afetiva ter apenas um amor? Contudo, para começar a pensar diferente da maioria é necessário alguma dose de coragem e vontade de viver intensamente.

Regina Navarro Lins

domingo, 20 de outubro de 2013

Canção na Plenitude

MMM

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força -- que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés -- mesmo se fogem -- retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft

A vida é...

Vento

A vida é

aprender a sorrir quando há uma derrota.
saber ser humilde na hora que vence.
conquistar novos horizontes.
antes de construir uma casa fazer o alicerce.
ajudar as pessoas que necessitam de nosso apoio.
saber que às vezes o fracasso é uma lição para o futuro.
construir uma escada para subir na vida.
saber que o próximo tem sentimentos.
aprender a amar.
saber que as coisas materiais nada se leva, e sim o
espírito, sua consciência.
aprender a viver e a sobreviver.

Jecely Teixeira

Nesta esquina do tempo

Ondas musicais

Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do eu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando
Sobre as águas, as margens e os lírios.

José Saramago

 

Beija Flor

O Pintor, o Pássaro e a Gaiola

Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta
Depois pinte
algo gracioso,
algo simples,
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos se necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele aparecer
observe no mais profundo silêncio
até o pássaro entrar na gaiola.
E quando ele entrar
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar
na plumagem do pássaro.
Em seguida pinte a árvore
escolhendo o mais bonito dos seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde
e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas na relva
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se o pássaro não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal,
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza,
você arranca uma das penas do pássaro
e escreve o seu nome num canto do quadro.

Jacques Prévert

Delírios...

Delírios...
Se eu tivesse o dom de paralisar o tempo, o faria agora, ao seu lado, em seus braços....
Este momento seria eterno, assim como são nossas almas!
Nada mais existiria além do seu olhar, seus lábios, sua pele, seu cheiro, seu carinho...
Este prazer seria inacabável e meus desejos insaciáveis!
Nunca chegaríamos a exaustão e nem tão pouco ao gozo, seria tão somente, prazer e prazer sem fim....
Os arrepios na pele seriam constantes, intensos!
Mas o tempo, este não para e nem se quer espera, tenho apenas o presente para amá-lo...
Momentos que farei valer por uma eternidade meu amor!

Jacira Cardoso

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sábado, 19 de outubro de 2013

Certas palavras podem dizer muitas coisas;
Certos olhares podem valer mais do que mil palavras;
Certos momentos nos fazem esquecer que existe um mundo lá fora;
Certos gestos,parecem sinais guiando-nos pelo caminho;
Certos toques parecem estremecer todo nosso coração;
Certos detalhes nos dão certeza de que existem pessoas especiais,
Assim como você que deixarão belas lembranças para todo o sempre:

Vinicius de Moraes

 

Soneto do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu... Vinicius de Moraes

Um pouco do que me faz te querer ...

 

O seu sorriso quando só eu e você sabemos o significado...
Os nossos olhares quando se encontram silenciosos e camuflados...
Nossos corpos quando se encostam levemente,
arrepiando os sentidos sem que ninguém perceba...
Tuas palavras e comportamentos que sei serem pra mim...
Tua presença, teu toque, teu cheiro em local onde não posso abusar deles...
Somente desfrutar em silêncio ...
Nossos beijos às escondidas, abraços inacabados, desejos incontidos...
Apenas abafados...
Mas há a saudade, há a vontade incontida de ter teu carinho a todo instante.
De te dar carinho a qualquer momento...
Há a falta do beijo de chegada, do beijo de despedida ...
O gosto molhado da tua boca macia...
Só resta a ânsia pela próxima vez.
Mas é quando posso usufruir do teu corpo que tudo mostra valer a pena.
Aquele momento que parece que não vai chegar e que às vezes nos antecipamos,
Arriscando... Brincando...
Um sentimento tão gostoso que não quero tirar de mim...
Uma coisa tão boa que chega dar medo…

Elyedre Mireila

Luz

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

 

 

 

 

 

 

 

Espelho de água

Almas alinhadas

Riso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Me perco no silêncio que te pertence,
te escondo em meio aos meus segredos,
aos seus olhos minhas manhãs se iluminam,
alguns desejos ficam, nem tudo consigo dar.

Sou dono, parte inteira da sua vida,
te pertenço, sou a paixão que descontrola,
te sirvo pedaços de amor em forma de carinhos,
me atrevo, não fujo entre abraços e me dou.

Olho fixo no seu rosto e me vejo,
mudamos as almas, tomamos uma do outro,
tatuamos paixão ao redor de tudo nosso,
a pele ainda é a mesma, com outras marcas.

Os gritos incontidos foram da garganta,
as mãos estão livres para acarinhar,
braços são presos somente entre afagos,
confissões, juras, tudo puro e verdadeiro.

Não existem mais distâncias entre sentimentos,
as carícias não mais desaparecem nos corpos,
tateio nossos sentidos e rogo por mais,
pareço insaciável, outras vezes indefeso.

Faltam sempre dias e noites em meus planos,
quero seu corpo sereno para eu aquecer,
o colo vazio onde cabe meu tronco nu,
a boca sedenta de tudo que te sirvo em meu êxtase.

Pertenço-te das formas e jeitos que desejar,
te dou, oferto, roubo seus desejos mais loucos,
não deixo nenhum vestígio dos seus sonhos,
realizo meus e seus prazeres, como e onde pedir.

Combinamos amar, desejar ou só ficar junto,
mudamos os destinos no meio do caminho,
tornamos amantes, servos dos corações,
alinhamos as almas em uma direção e seguimos.

Caio Lucas

Consciência!!!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Antropóloga

 

explorar teus subterrâneos
desvendar teus mistérios
navegar por teus trilhos
ultrapassar teus portais
percorrer tuas curvas
conhecer tuas lendas
penetrar tuas fendas
avistar teus perigos
amar tua geografia
perder-me em ti
nesta hora
todo dia
agora

Ana Paula Pedro

domingo, 13 de outubro de 2013

Predomínio do Sentido Interior

Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas. Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.

A poesia da terra nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas foram mais poéticas, mas não podemos dizer (...)

A poesia encontra-se em todas as coisas - na terra e no mar, no lago e na margem do rio. Encontra-se também na cidade - não o neguemos - é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um operário, que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue.

Meu senso íntimo predomina de tal maneira sobre meus cinco sentidos que vejo coisas nesta vida - acredito-o - de modo diferente de outros homens. Há para mim - havia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim uma plenitude de sugestão espiritual em uma galinha com seus pintinhos, atravessando a rua, com ar pomposo. Há para mim um significado mais profundo do que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, nas velhas latas num monturo, numa caixa de fósforos caída na sarjeta, em dois papéis sujos que, num dia de ventania, rolarão e se perseguirão rua abaixo. É que a poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar plena consciência de sua queda, atônito diante das coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e aquelas condições, mas de nada mais se recordando.

Fernando Pessoa em "O Eu Profundo"

Ao longe, ao luar...

Rios

sábado, 12 de outubro de 2013

Andei léguas de sombra

 

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical. A alcova
Desce não se por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

Fernando Pessoa

Tela

Chuva Oblíqua

8-3-1914]
I

ATRAVESSA esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

III

A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro...
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo...

Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Queóps, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Queóps em ouro velho e Mim!...

IV

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...

De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje..

VI

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe... Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.”

 

Caminhos

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa

 

Lua de flores

 

 

 

 

 

 

 

 

“Sentiu a dor na música”

 Tempestades