sábado, 30 de novembro de 2013

Tem sol

Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus…
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto...
Envolve-me nos teus braços e, cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço, do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito
Deixa que os meus olhos durmam
nos teus…
Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti
Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos…

Albano Martins

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

 

Verso de Folhas

Um

dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,

para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem

e eu não saiba

e eu não sinta.

Albano Martins

Trago morangos na boca

Fonte

E amoras no desejo
Penduradas à cintura
Noites – romãs, bago a beijo.
Sou cesta de fruta doce
Cheiro a terra a madrugar
Dispo debaixo das árvores
Nuvens que um pássaro me trouxe
Dos abismos de trovar.
Silvestre, mulher e frágua
Bebo das fontes a água,
Sedes minhas, a matar.

Alice Fergo

Luz em árvore

 

 

 

 

 

 

 

 

Furacão

Caminho sem pés e sem sonhos
Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.
os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade

se conjuguem. ...
avanço sem jugo e ando longe
de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

Fogo Aredente

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas...
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto

 

Secos Invernos

Se eu pudesse,
Tocava o teu rosto em silêncio
E falava-te do mar,
Deixava tombar os meus cabelos
Sobre o teu ombro...
Como uma bênção
E fechava os olhos
Consciente de ser em ti
Como um salgueiro.

Ana Brilha

 

Penso-te

 

 

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti...
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Canção em outras palavras

Estações

Canção em outras palavras
O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem, bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.
O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revôos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem de mais.

Lya Luft

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Disseram que havia sol

A ciência

Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas
Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas
Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas
E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas
Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

José Saramago

Escuta

Sem Nome

Escuta: quando passamos as palmas das mãos por uma flor, vez que vez, docemente - sente lá comigo! -, quando nos espraiamos pelo cálice, pela corola, pelo seu terno perianto de estames e gineceu, pelas folhas, pela sensação absoluta, pela sensação da sensação sem fronteiras; quando a nossa sensibilidade se agudiza, se erecta na motricidade fina e flor-sentimos, é como se sentíssimos por inteiro no corpo, por ricochete, por dádiva divina, os pesos diferentes de várias carícias, como acordes vários mas unidos numa doce sinfonia táctil e interminável.
Assim sinto em meu corpo as tuas mãos-gineceu e por isso gero este pólen-poema em minhas anteras gratificadas

Carlos Serra

sábado, 9 de novembro de 2013

Foi para ti minha amada ♥


Encanto (2)

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.
Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.

Eugénio de Andrade

“Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.”

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Não entendo

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector

Houve um poema

Cleópatra
Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.
Houve um poema:
parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
e intransmitida jamais.
Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.
Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.
Cecília Meireles

Sou Eu

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Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
Álvaro de Campos,um dos heterônimos de
Fernando Pessoa

“Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.”

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A Casa é Sua ♥

A Casa é Sua
Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar
...
Não me falta parede
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar
Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar
Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Não me falta banheiro, quarto
Abajur, sala de jantar
Não me falta cozinha
Só falta a campainha tocar
Não me falta cachorro
Uivando só porque você não está
Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
Não me falta casa
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar
Para os pássaros voltarem a cantar
E a nuvem desenhar um coração flechado
Para o chão voltar a se deitar
E a chuva batucar no telhado
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Arnaldo Antunes

Só falta você acordar
Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal”

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A noite inesperada

Anoitecer

A noite inesperada

São apenas palavras

Que trago no meu regaço

Não receies.

São apenas palavras que sinto

São sinos que tocam

Em mim

Nesta inesperada noite.

Como malmequeres

Numa sinfonia.

Como se fossem palavras

Em flor,

Cantadas.

Não receies a sua música

Nem o seu fulgor.

Sou apenas eu.

E neste momento

Assim me mostro,

Assim me mostro a ti.

Terás que observar o céu

E os traços das estrelas,

E os caminhos desenhados

Nos céus predestinados.

É como um destino

Que me aproxima de alguém,

Como o destino de ti

Como o destino de mim.

Fernanda Guadalupe

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"Só nos meus versos poderão encontrar a minha promessa de amor eterno."

"Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
...
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram. "

Lunalva

 

Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente
Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada
Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho.
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas
Não
Não me amem tão depressa
Não me compreendam tão depressa
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão quotidiano
O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão-de beber
Do Fogo e do Sangue

Carlos Nejar

Os adjectivos estão velhos.
Um dia pensarei,
fui verso onde os pássaros soletravam árvores.
Valem-me as frases que amparadas no açúcar
atravessam o tempo.
As pernas já não são rios que procuram as ruas
para o corpo se escrever.
Subo o Chiado.
Ao fundo, guindastes respiram os barcos
e o Tejo é um país com palavras esquecidas.
Nas margens, as embarcações
recordam os verbos que usavam panamá.
Tudo está diferente.
As pessoas não rimam.
Têm os nomes escondidos nas colinas
e as veias rasuradas.
Custa-me agora seguir a corrente
que chega a uma esplanada.
Tempos houve em que entrava na "Brasileira"
como se mergulhasse na poesia.
As cadeiras eram gramáticas
com homens sentados
e, nas mesas,
as folhas chamavam canetas.
Chego.
Sento-me.
Como mudou o mundo nos mesmos olhos.
Chamo o empregado.
"Por favor, uma chávena de sílabas".
Logo vinte pronomes proclamam o prurido,
"é um poema".
Só Pessoa numa estátua é celibatário.
Vou observando os homens,
parágrafos fétidos que matam dicionários.
Anoitece.
O empregado despeja um grito no balcão.
"a conta daquele poema."
Levanto-me.
Sou um texto de outros tempos.
Treme-me a prosa,
visto-lhe a gabardina.

Desço o Chiado.
Entro numa livraria.
Lá fora o vento agita a sintaxe
de quem nada tem para ler.
Cansado silencio-me junto à estante.
Os dedos sorriem num livro,
"Confesso que vivi".
Para os que não tocaram o meu sangue,
serei sempre um poema com Alzheimer.

Alberto Pereira

sábado, 2 de novembro de 2013

Saudade!

Terra Quente

Saudade!
Sinto. Sinto saudades sim... Ela às vezes fica imensa... Vai invadindo toda a minha alma como se fosse só dela e vivesse para servi-la...Dominando-me aos poucos...lenta e suavemente...como se jamais quisesse me maltratar...Faz-se repleta de tolerância e vou acostumando-me à sua companhia...à sua amizade...aos seus momentos e aos seus apelos...Aprendemos com muito sacrifício a nos suportar...nas manhãs de nosso viver...e nessa convivência...até sublime...eterna... vamos consumindo-nos como se dependêssemos uma da outra para estar...para ser...para viver...de mãos dadas na busca... nem sei de que...nem sei... porque...por quê ?
daquele olhar...?
Ah! que saudade tenho...do tudo quanto mantenho dentro de mim...Saudade daquele primeiro medo...que quase me consumiu...Saudade depois...dos “segundos” medos que jamais tiveram fim...Das inseguranças que com eles vieram e que se estabeleceram para manter-me em vigília constante...procurando outra ...vida...aquela que tive e que era virgem de lembranças...de medos e de saudade...
Oh Céus! Como tenho saudade de gente...de pessoas que me embalaram a vida e que comigo brincaram no carrossel da alegria...no giro da felicidade! Tenho saudade daquela ilusão... de que todos tinham bom coração...que todos se queriam bem e que todos se amavam...Saudade grande...do sonho que tinha em relação às pessoas...e que se perdeu...pelos caminhos dos desencontros...que se consumiu com a vida...nas cinzas da existência...sonhos desfeitos...
uma saudade que veio...rondando a porta do coração e que sem pedir...ali se acomodou...
Só saudade...saudade e só !

José Luiz Pereira de Godoy

“Anda o Sol na minha rua”

Sol de Inverno

 

 

 

 

O sol está dentro de cada um. Sorrir e acreditar em si
é o caminho para alcançar a luz e o brilho que irradia da própria existência
e acalenta a crença em nós mesmos. Acreditemos no próprio sol,
ele mora no “eu” e ilumina o tudo e o todo.
A gargalhada é o sol que varre o inverno do rosto humano."

Victor Hugo

“Não se atreve a minha boca, Que eu não a deixo atrever. A dizer que eu ando louca, Que ando louca por te ver”