sexta-feira, 10 de abril de 2015

PALAVRAS

Serpentinas

Tem cuidado com as palavras

mesmo as milagrosas.

Pelas milagrosas nós fazemos o melhor possível,

por vezes são como uma multidão de insectos

que não nos deixa uma picada mas um beijo.

Podem ser tão boas como dedos.

Podem ser tão seguras como a rocha

onde te sentas.

Mas também podem ser ao mesmo tempo margaridas e [amachucadas.

Contudo, estou apaixonada pelas palavras.

São pombas que caem do tecto.

São seis laranjas santas pousadas no meu regaço.

São as árvores, as pernas do verão,

e o sol, seu impetuoso rosto.

No entanto, falham-me com frequência.

Eu tenho tantas coisas que quero dizer,

tantas histórias, imagens, provérbios, etc.

Mas as palavras não são suficientemente boas,

as erradas beijam-me.

Por vezes voo como uma águia

mas com as asas de uma carriça.

Mas tento ter cuidado

e ser amável com elas.

As palavras e os ovos devem manipular-se com cuidado.

Uma vez partidas há coisas

impossíveis de reparar.

Anne Sexton

Ame-se

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa forma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. Uma vez que nem sei se tu existes.
Joaquim Pessoa

Cláudia Stach-2

A verdade é que eu sempre gosto das mulheres. Gosto da falta de convencionalismo delas. Gosto da integridade delas. Gosto do anonimato delas.

Virginia Woolf

Imagem de Cláudia Stach

 

O desejo é a essência da realidade

Jacques Lacan

Cláudia Stach-3

Imagem de Cláudia Sta

Cláudia Stach

amor é a nossa alma.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso

Imagem de Cláudia Stach


domingo, 5 de abril de 2015

Eu a Vejo - minimalista

Cabelos

Ela passa por mim segurando o regador. Molha as plantas da varanda, os vasinhos na janela, a roseira no canto do jardim. Dá um longo suspiro, coloca a mão na cintura como sempre faz, num gesto inconsciente. Olha em volta, dirigindo o olhar para a esquerda, em direção à montanha. Vê a neblina que beija a superfície lisa da pedra com delicadeza. Contra o pôr do sol, observa os milhares de criaturas que voam na maciez da tarde, as asas transparentes.

Ela olha para a casa. Imagina coisas que eu não sei contar. Desce o caminho, passa novamente por mim, mas não me olha. Lava algumas louças que estão na pia da cozinha, passa  a vassoura no chão. Pensa no que poderá preparar para o jantar enquanto estende a roupa. O crepúsculo cai sobre a casa, e ela acende as luzes - não gosta muito do escuro. Encostada à parede do corredor, eu a vejo passar em direção à sala de estar. Liga a TV, e tenta assistir alguma coisa, mas os pensamentos voam para longe, pela janela, perdem-se naquela estrelinha que começa a brilhar lá longe... será que ela pensa em mim?

Desliga a TV e coloca uma música suave. Caminha descalça pela casa. Acende um incenso. A casa olha para ela, e a entende. As duas se conhecem muito bem e sentem-se à vontade juntas. Ela chega à janela, e olha o jardim. Aspira o perfume da grama recém-cortada. Um beija-flor faz charme, chegando bem perto dela, e depois voa para longe, desaparecendo por trás do muro de hera. Estou bem ao lado dela. Nossos cotovelos se tocam, e posso ouvir o som de seu coração batendo. Mas ela não me olha.

Pega um livro, enrodilhando-se na poltrona. Abre ao acaso em uma das páginas, e lê com atenção, e eu sei porque: ela acredita que os livros tem poderes mágicos e que podem interagir com os leitores, dando-lhes as respostas que eles procuram. Ela suspira. Sussurro em seu ouvido o meu nome. De repente, ela ergue a cabeça e olha em volta. Parece inquieta; leva uma das mãos à garganta, e vejo a pele do seu braço arrepiar. Ela me sente. Uma sombra de tristeza passa sobre seu rosto, criando pequenas dobras em sua testa. Seus olhos ficam marejados.

Eu a vejo. Ela me sente, e se pergunta onde estou.

Ana Bailune

Despertar

Pedaço quebrado de tempo,

O instante;

Jazendo entre a palavra,

O silêncio

E o livro na estante.

O tempo não perdoa,

Ele anda depressa,

E para quando bem quer:

Segura, entre os dedos,

O mister.

À janela,

Um pássaro bobo

Deixa um canto descuidado,

Caído,

Escorrendo sobre o reboco.

Vem o tempo, e o silencia,

Vem o tempo e o ressuscita.

Acende a luz da esperança

E assim, ao mesmo tempo,

Apaga as velas da vida.

O tempo não tem paciência,

Não perdoa o desperdício,

Não perdoa a nossa pressa,

Ele passa como quer,

Se encolhe, se estica,

Mas jamais fica.

Ana Bailune

 

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No dia 18 de Junho de 1946, numa terça-feira, às 16:40 horas, na Rua Conselheiro Saraiva, número 39, antiga Rua Direita, em Santo Amaro da Purificação – Bahia, nascia mais um filho de Dona Claudionor Vianna Telles Velloso (Dona Canô) e Senhor José Telles Velloso (Sr. Zezinho ou Zeca), desta vez uma menina, cujo nome foi escolhido pelo irmão Caetano Emanuel, que nesta época tinha quatro anos de idade. O nome não poderia ser ao mesmo tempo tão sonoro, belo e forte quanto é: Maria Bethânia.

http://www.mariabethania.com/oartista.php 

https://www.youtube.com/watch?v=49SEXK0KWdQ

Bethamonologodeorfeu

Um pequenino grão de areira
Era um eterno sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
Imaginou coisas de amor
Passaram anos, muitos anos
Ela no céu e eleno mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pôde com ela encontrar
Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém, pôde até hoje afirmar
O fato é que depois, muito depois
Apareceu, a estrela do mar!

Maria Bethania

mariabethania

 

 

 

 

 

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=Sf4CulN6a1I

quinta-feira, 19 de março de 2015

Kimberly Dow

Sou vento que acaricia teus cabelos
beija os lábios
sopra a nuca
como moinhos que mói o trigo das
searas quentes!
Em remoinho fica a vontade de amar
Onde o vento te possui lentamente,
num frio húmido
sinto tua língua nos meus pés
Teu corpo invernal!
Sente o vento que sussurra no teu ouvido
quero ouvir teu gemido
Entra em mim doce prazer
cruza tua língua com a minha
beija-me ama-me
Quero teu corpo junto ao meu
Teu calor de desejo.
Gabriela Vitória ---- Gaya

Imagem de Kimberly Dow

Duma

Delicadeza não se ensina,
é diferente do respeito.
Delicadeza é temperamento,
não se obtém com a idade,
não é uma promoção da sensibilidade,
não vem com a educação
ou com a imitação dos pais.
Delicadeza é um defeito maravilhoso,
uma entrega irreversível.
É uma loucura do bem, uma paranóia sadia.
Oferecer mais do que foi pedido,
oferecer-se á toa.
Gentileza nunca é forçada,
é espontânea ou não é,
não pode ser explicada,
não pode ser cobrada.
Sucumbo diante da delicadeza:
a delicadeza é gentileza refinada.
Fabrício Carpinejar 

Imagem de Duma

Duma-1

Fala-se de amor para falar de muitas coisas
que entretanto nos sucede.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.
Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não para.
Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Fernando Assis Pacheco

Imagem de Duma

quinta-feira, 5 de março de 2015

 

Ponte da saudade

Saudades,

está no infinito da ausência

É uma ponte em que atravessas e fica a memórias

vividas, momentos remexidos!

Quando esse sentimento visita o meu coração

Estou no delinear das minhas sombras

que outrora foram gestos voz presença

sempre

adormecem em mim!

Gabriela Vitória

terça-feira, 3 de março de 2015

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Para cultivar um jardim carece ter delicadeza no tocar. É preciso ter a humildade de se curvar, ajoelhar na terra e tocar o destino de todos os seres, o pó. É necessário fé de que as sementes lançadas na terra fecundarão a contento. Esperar o aliado tempo dar o discernimento das ervas daninhas, nos dizendo o que devemos cultivar e o que devemos arrancar. Cultivar um jardim é a mais perfeita metáfora de uma prece que fazemos...
Willmondes


Desconheço o autor da imagem

Carsten Witte

Ela entra e tem um sorriso, um brilho, uma delicadeza, todo mundo em volta para, e ela olha pra mim, e cara sinceramente minhas mãos começam a suar frio porque eu não sei aonde sou tão bom assim, mas eu sei que a minha sorte esta bem aqui, e eu sempre soube que tenho muita sorte, em algum lugar e em algum momento eu sabia no meu inconsciente que ela ia chegar pra mim. Quando seu cheiro vem me visitar e quando encontra o meu corpo me deixa louco, então vem logo amor to cansado de esperar pra sentir o seu cabelo se espalhar no meu corpo na minha cama no meu travesseiro, me consome inteiro. Ela esta em minha mente agora, e porque ela não para de me tocar com os olhos e vem me sentir de verdade.
Natália Montezino

Imagem de Carsten Witte

Mundo

Ando pelo mundo abrindo horizontes
Colhendo abraços
Semeio afectos
num mundo secreto!
Gabriela Vitória

Paixão 3 

Pintei de todas as cores a nossa paixão
na mistura das cores fizemos amor...
Gabriela Vitória

Serenata

Deville Chabrolle

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo
Cecília Meireles

Imagem de Deville Chabrolle

 

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Sem Ti...
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que
a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Carolina Serpa

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

William Butler Yeats

Imagem de Carolina Serpa

Reconheça-me

Mar de amar

No ar, sou o sabor da química
No Mar, tua cor salina
No vento, sou a brisa quente
Na Luz, teu som fluorescente
Na água, sou refrescância
Na terra, tua análoga dança
No amor, sou o desafio
Na dor, teu arrepio
No sol, sou a cor amarela
No chuva, tua cancela
No medo, sou a nova lágrima
Na coragem, tua doce adaga
No sono, sou a suave canção
No grito, tua fiel interjeição
No beco, sou a esquina
No silêncio, tua guia
No peito, sou tuas mil cores
Nos vãos, tuas nascentes flores

E se tens em ti tudo de mim
E nas coisas sou em tudo tua
Percebas meu amor imenso em ti
Minha alma no teu peito se mistura...

Ka Santos


Antonio Canova

Não sei, nunca soube
determinar onde começam
os meus braços
e onde terminam os teus
talvez por isso
tenha esta tão grande necessidade
de te abraçar sempre
como se o tamanho não contasse
mas apenas o gesto e o conforto em si
de sentir a calma do teu silêncio
encaixada bem perto da minha orelha
e os olhos fechados de tanta felicidade

são reis

Imagem de António Canova

Pássaros

Sou um pouco como os pássaros
Tenho uma sede de lonjura e de infinito
que não se firma nas mãos
que deixa o espírito inquieto
quase à beira da loucura
Tenho essa sede de palavras
em dose diária
quase como uma espinha
atravessada na garganta
que nem me mata nem me afoga
mas que me faz cantar e desejar
que as palavras nunca se me acabem
para que eu me possa soltar
e pelos breves momentos que roçam meus lábios
eu possa me sentir um pouco
assim como os pássaros
de mãos vazias mas infinitamente livre
são reis

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Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.

Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.

Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.

Ter-te perto,
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã,
nascem exatamente em ti.

Miguel Afonso Andersen

domingo, 1 de março de 2015

Um romance é como um arco de violino, a caixa que produz os sons é a alma do leitor. Stendhal

Jean Michel Bernier

Imagem  de Jean Michel Bernier

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Amores imortais
Quem disse que aquele amor esta morto?
Sei que respira e pulsa mesmo quieto...
Como seria nosso caso inesperado de amor
Seria debaixo de alguma chuva torrencial?
Encostado nalguma árvore bem frondosa
Bem escondido entre a folhagem espessa
Os corpos molhados se tocando devagar
Peles úmidas que se procuram silenciosas
E ocorrem correntes elétricas no sangue
Tamanha quantidade de arrepios da pele
E partes de nosso corpo ganhariam vida
Saiba que amor é poesia e a poesia é amor
Soubemos encontrar nessa nossa paixão
São os segredos escondidos no seu coração
Que ecoam nas batidas desesperadas do meu
Enquanto lágrimas rolam feito tempestade
No exato momento em que tu nega me amar
Essa sua boca sente o prazer de meu beijo
E suas mão apertam o meu ausente corpo
Lembranças perfeitas de sonhos desfeitos
Pois os amores assim nunca morrem...
Eternizam em sua mais suave essência

Luizão Bernardo

domingo, 25 de janeiro de 2015

Tão fria

Caminho

Tão fria, tão vazia,
repleta de sentimentos indecifráveis,
coração enfraquecido de tanta dor,
ela era o sofrimento em pessoa,
a mágoa, o medo de amar a consumia muito,
depois de tantas deceções não podia ser diferente,
depois de tanta dor, era o mínimo o que ela podia fazer,
ela era indiferente, porque as pessoas a fizeram ficar assim,
era sua proteção, sua máscara, mas por dentro
ela não era nada disso, mais tinha que ser,
se não seria mais magoada,
Ela era uma garota frágil porém forte, ela tinha carência
de atenção, tinha saudades de uma pessoa que nunca existiu,
sabe quem?
Dela mesma, de uma pessoa que não se apegava,
não se importava, porém “essa pessoa” nunca existiu,
a vontade dela era que ela existisse, mas ela não sabia como.
Ela precisa recuperar os seus pedaços, seus restos, suas migalhas,
seus sentimentos que ainda existiam, eram poucos ela sabia,
mas eram o que restavam. Para ela tudo amargava,
tudo não tinha sabor, principalmente o amor.
O amor era uma das coisas que ela não queria mais em excesso,
assim ela podia se desapegar mais ligeiro, sem sofrimento,
ela sabia que isso era bem difícil de conseguir.
Mas ela tentava ser sempre a garota “grossa, amarga, fria”
com temor que o amor, e as pessoas,
ainda destruíam seu coração e seus sentimentos. E a vontade de
não ser magoada, aumentava muito,
mas ela sabia que isso era impossível.
As “coisas” mais insignificantes a magoavam bastante,
porque ela estava tão enfraquecida, mas ela guardava
pra si mesma, para ser considerada “a forte”,
ela encarava tudo com um sorriso, o sorriso dela
a feria mais do que as suas próprias lágrimas
que ela derramava todos os dias no seu travesseiro
Ela era o devaneio,
o sonho,
a incógnita.
o repúdio.

Oswald Pires

Marion Morehouse a amada de E. E. Cummings

Marion Morehouse-2

Eu gosto do seu corpo
Eu gosto do que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quando lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar

E. E. Cummings

Imagem de Marion Morehouse

https://www.youtube.com/watch?v=UypK-KWUsbI

Carrego seu coração

 

Marion Morehouse-1

Eu Carrego seu coração comigo
(Eu o carrego no meu coração)
Eu nunca estou sem ele
(onde quer que eu vá, você vai, minha querida;
e o que quer que eu faça sozinho, eu faço por você, minha querida)
Eu não temo o destino
(porque você é o meu destino, minha doçura)
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
Porque você é meu mundo, minha verdade.
Este é o maior dos segredos que ninguém sabe.
(Você é a raiz da raiz, e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;
que cresce mais alta do que a alma pode esperar
ou a mente pode esconder.
Este é o milagre que distancia as estrelas
Eu Carrego seu coração
(carrego no meu coração)
Se uma imagem vale por mil palavras, por não estar me vendo agora é que preciso de mil palavras pra te descrever o que sinto. Eu filho do sol de corpo imortal encontrei em ti, moça dos olhos serenos, uma paixão lunar.E a tua luz refletida no mar me faz querer andar por sobre as águas como se eu pudesse mesmo caminhar por sobre elas.
Ah essa condição humana marcada pela transitoriedade, esses laços que se desfazem com qualquer vento contrário, esses momentos que acabam. O mundo foi feito para girar e enquanto ele roda, tudo se transforma ou acaba. O que poderia essa minha paixão contra todas essas probabilidades?
E nossa saída para essa impossibilidade terrena é o Nosso destino cósmico, que sempre quis que feito duas estrelas, cada um em sua galáxia,brilhássemos.E assim desconectados nossa esperança sempre foi que os nossos raios de luz um dia pudessem em algum confim do universos se encontrar.E eles se encontraram!
Por isso não te quero como um prolongamento meu, nem desejo amar-te feito uma criança, que ama pela necessidade de sobrevivência.Amo-te pelo que me faz sentir, pelo significado que dá a minha vida e pelo que vejo refletido de mim em ti.
Ao unir a minha luz a tua luz juntos iluminaremos o caminho que se abre infinito a nossa frente, mesmo em meus momentos mais solitários, naqueles de mais vazio, sempre senti no fundo a sua presença, porque no fundo sempre soube que embora na distancia, jamais fomos
separados....

E. E. Cummings

Imagem de Marion Morehouse

Marion Morehouse

Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for, você vai, minha querida
Não temo o destino
Você é meu destino, meu doce
Não quero o mundo pois, beleza
Você é meu mundo, minha verdade
Eis o segredo que ninguem sabe
Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto
E o céu do céu
De uma arvore chamada vida
Que cresce mais do que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder
E esse é o prodigio
Que mantem as estrelas a distancia
Carrego seu coraçao comigo
Eu o carrego no meu coraçao.

E. E. Cummings

Imagem de Marion Morehouse

Quando o Meu Amor Vem Ter Comigo

Amor

Quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão....
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela....
o que é isso que o realejo toca
E. E. Cummings

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

P Verde (2)

Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na, está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
Só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada

É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!

Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais intima distância.

António Ramos Rosa

Pode se remoer
Se penitenciar
Eu encontrei alguém
Que só pensa em beijar

Pode se remoer
Se penitenciar
Eu encontrei alguém
Que só quer me beijar

Você não tem o que dizer
Você nem pode não gostar
Cê pode até se ajoelhar
Ele só pensa em me querer

Pode se remoer
Se penitenciar
Eu encontrei alguém
Que só pensa em beijar

Pode se remoer
Se penitenciar
Eu encontrei alguém
Que só quer me beijar

Você não tem o que dizer
Você nem pode reclamar
Cê pode até se ajuizar
Ele só pensa em me querer

Pode se remoer
Se penitenciar
Eu encontrei alguém
Que só pensa em beijar

Pode se remoer
Se penitenciar
Eu encontrei alguém
Que só quer me beijar

Você não tem o que dizer
Você nem pode não gostar
Cê pode até se ajuizar
Ele só pensa em me querer

Adriana Calcanhotto

https://www.youtube.com/watch?v=WzMCmJVZ9l4

Vem à Quinta-feira...

 

Vem à Quinta-feira...

É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja

ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris

for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães

assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.

Vem à Quinta-feira.

A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,

e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare

de acabar tão depressa.

Vem à Quinta-feira.

Mas não venhas nesta, vem na próxima.

Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso

profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos

a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo

para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,

para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.

Vem à Quinta-feira e não te demores.

Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista

(sabes como gosto de pensar em tudo

ao mesmo tempo)

e afinal o que me falta fazer contigo

não é caro:

- viajar de auto-caravana,

- dançar pela Estrada Nacional,

- ver-te chorar.

Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.

Vem à Quinta-feira.

Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.

Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,

eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.

Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.

Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.

Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor

- ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.

Temos ainda tanto para fazer.

Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta.

Filipa Leal

https://www.youtube.com/watch?v=eSmJLlZkPu8&feature=youtu.be

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

https://www.youtube.com/watch?v=vOOcDxZpWr4

Diário

«Dizem que a banheira do rei Tching-thang tinha gravado caracteres que diziam:
"Renova-te completamente todos os dias; fá-lo uma e outra vez e sempre."
Consigo compreender isto.
(...) Devemos aprender a "re-acordar'" e a manter-nos acordados, não mecanicamente mas por uma infinita expectativa da manhã que não nos esquece mesmo no nosso sono mais profundo.
Não conheço facto mais encorajador que a inquestionável capacidade que o homem tem de elevar a sua vida através dum esforço consciente.
Uma coisa é pintar uma pintura ou esculpir uma escultura, e fazer assim alguns objectos belos; mas muito mais glorioso é esculpir e pintar a própria atmosfera e meio pelo qual olhamos, o que moralmente podemos fazer. Afectar a qualidade do dia, essa é a maior das artes.
Todo o homem tem a tarefa de fazer a sua vida, até nos pequenos detalhes, merecedora da contemplação da sua hora mais crítica e elevada.»

Henry David Thoreau

«Na sociedade exposta, cada sujeito se torna o seu próprio objecto de publicidade. O seu valor de exposição é a medida de tudo. A sociedade exposta é uma sociedade pornográfica. Tudo é voltado para fora, descoberto, despojado, despido e exposto. O excesso de exposição faz de tudo uma mercadoria , na qual tudo é “entregue nu, sem segredo, à devoração imediata”. A economia capitalista submete tudo à coacção da exposição. Só a encenação expositiva gera valor, renuncia-se a toda a peculiaridade das coisas. Estas não desaparecem na obscuridade, antes no excesso de iluminação.»

Byung-Chul Han, “A Sociedade da Transparência”, Relógio d’Água, 2014

"Nada podes escrever sobre ti que seja mais verdadeiro do que tu próprio és: eis a diferença entre escrever sobre ti próprio e escrever sobre objectos externos. Cada um escreve sobre si próprio de acordo com a altura a que se encontra. Não te encontras sobre umas andas ou numa escada, mas sobre os teus pés descalços."

Ludwig Wittgenstein in "Cultura e Valor", Edições 70.

Furacão

«A verdade é que as nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações...) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. O risco é o aprisionamento permanente nesse cansaço, como explicava profeticamente Fernando Pessoa: "Estou cansado, é claro, porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado. De que estou cansado não sei: de nada me serviria sabê-lo, pois o cansaço fica na mesma. (...) "Não sei sentir, não sei ser humano", escrevia ainda Fernando Pessoa. E continuava: "Senti de mais para poder continuar a sentir." De facto, o excesso de estimulação sensorial em que estamos mergulhados tem um efeito contrário. Não amplia a nossa capacidade de sentir, mas contamina-a com uma irremediável atrofia. "Ah, se ao menos eu pudesse sentir!," é a proposição do desespero contemporâneo, que advém depois de se ter experimentado tudo, em vertigem e convulsão.»

José Tolentino Mendonça, "A Mística do Instante", 2014

Nem sempre o silêncio nos dá sossego…Cecília Vilas Boas

Siêncios

Quando te encontrei nos gestos…GV

https://www.youtube.com/watch?v=KmovpX2VdT4&feature=youtu.be