sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sossega Coração

Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias,

Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias,

Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que quer só não tê-lo!

Pobre esperança a de existir somente!

Como quem passa a mão pelo cabelo

E em si mesmo se sente diferente,

Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.

Quer só a noite plácida e enorme,

A grande, universal, solene pausa

Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

https://www.youtube.com/watch?v=oeCpvmVjeWA

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Gosto quando me falas de ti

Richard S. Johnson

Gosto quando me falas de ti e te vou percorrendo

e vou descortinando a tua vida na paisagem sem nuvens,

cenário dos meus desejos tranquilos.
Gosto quando me falas de ti e então percebo

que antes mesmo de chegar, me adivinhas,

que ninguém te tocou, senão o vento

que não deixa vestígios, e se vai

desfeito em carícias vãs…
Gosto quando me falas de ti quando aos poucos a luz

vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro

e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,

maduros,

mas nunca mordidos antes da minha audácia.
Gosto quando me falas de ti e muito mais adiantas

em teus olhos descampados, sem emboscadas,

e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol

distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja

primeira curva

foi o nosso encontro.
Gosto quando me falas de ti porque percebo que te desnudas

como uma criança, sem maldade,

e que eu cheguei justamente para acordar tua vida

que se desenrola inútil como um novelo

que nos cai no chão…

J.G. de Araújo Jorge




domingo, 10 de dezembro de 2017

Viver é não Saber que se Vive

Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face... E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver?


Florbela Espanca

As Coordenadas Líricas

16443307 - beach, wave and footsteps

Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu
A geométrica forma de meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.
Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
— as minhas coordenadas.

Fernanda Botelho

Um Dia

Dunas

Um dia partirei, muito cansada,
com as lembranças cingidas ao meu peito
e uma voz de saudade e de nortada.
(Levarei voz para gemer de espanto.
Levarei mãos para dizer adeus…
Olhos de espelho, e não olhos de pranto,
eu levarei. Os olhos serão meus?
Um dia partirei, talvez manhã.
Uma canção de amor virá das dunas.
De finas pernas, seguirei a margem
límpida, boa, enorme, no ribeiro
de água discreta a reflectir miragem,
braços de ramos, gestos de salgueiro.
Um dia partirei, muito diferente,
Enfim, aquela que jamais eu fora!
E os de cá hão-de achar que vou contente.

Natércia Freire

https://www.youtube.com/watch?v=wwPUriVBEuc

O Quadrado

607080

Título original:

The Square
De:
Ruben Östlund
Com:
Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Christopher Læssø
Género:
Comédia Dramática
Outros dados:
SUE/DIN/ALE/FRA, 2017, Cores, 142 min.

Christian é um homem respeitado que trabalha como curador num museu de arte contemporânea. É pai extremoso de duas crianças pequenas, conduz um carro eléctrico e contribui como pode em todas as causas humanitárias. Em suma, é um homem de bem. Profissionalmente, o projecto que tem agora em mãos é "O Quadrado", uma instalação peculiar que convida os visitantes a reflectir sobre altruísmo. Para o ajudar na promoção do evento, Christian conta com o departamento de relações públicas do museu. Mas os eventos que se sucedem acabam por lançar Christian numa crise que fará vir ao de cima uma versão menos "politicamente correcta" de si mesmo…

Palma de Ouro na 70.ª edição do Festival de Cannes, uma comédia negra com assinatura do sueco Ruben Östlund ("Força Maior") e interpretações de Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West e Terry Notary.

https://vimeo.com/235759615