José Deodoro Faria Troufa Real,[1] Prof. Arquitecto[2] português.
Especializado em Arquitectura e Urbanismo e com obras edificadas em Portugal, Angola e Macau.
Foi Professor na Universidade Moderna e é filiado na Loja Simpatia e União da Maçonaria.
José Deodoro Faria Troufa Real,[1] Prof. Arquitecto[2] português.
Especializado em Arquitectura e Urbanismo e com obras edificadas em Portugal, Angola e Macau.
Foi Professor na Universidade Moderna e é filiado na Loja Simpatia e União da Maçonaria.
"Agora dei para mascar chiclete com sabor melancia.
Deveria esconder esse detalhe. Mórbido para quem atravessou os 36 anos.
Mas vejo o quanto escondo o romantismo debaixo da mordida. Sou açucarado. Meu beijo é diabético. Logo eu que passo uma imagem seca de bolacha de sal.
Vá lá, não vou sorrir para mim de noite ou pedir a benção para os apaixonados, mas não acredito nesta história de acomodação no romance. Que de uma hora para outra cansamos. Não é cansaço, não é que paramos de seduzir porque conquistamos e que não precisamos mais arrebatar com surpresas. Não é que estamos seguros e não arriscamos mais. Não é o conforto ou o domínio territorial.
Senão começaremos a acreditar que existe cupido. E cupido é o mais cafona dos anjos. Quem começa uma relação com cupido termina na fossa repetindo os erros ortográficos das canções sertanejas.
Confio que há gente que não saiba namorar. Não sabe namorar, e pronto. Supõe que é instintivo, natural, que é beijar, abraçar e os oceanos transportam a espuma. Que basta amar e as relações funcionam.
Mas as relações queimam pelo pouco uso. A eletricidade enferruja.
Há gente que jura que namorar é cumprir um expediente depois do expediente: jantar, conversar e transar. Há gente que não quer namorar, e sim uma amizade para dividir o que se é. Sem tensão. Sem cobrança. Sem nervosismo.
Que tudo está definido e seguro para o final do ano, que não pode ser perdido no próximo minuto. Eu acabei de perder o próximo minuto.
Namoro é ambição. É um final de semana a cada dia. É uma delicadeza insuportável, antecipar os movimentos e agradar quando não se espera. Gentileza em cima de gentileza, infindável. Um cuidado para não magoar com aviso e pergunta, com aquela educação concedida a gestantes e idosos.
Namorar requer uma atenção absoluta. E não reclame: amar pode ser para toda a vida quando oferecemos toda a nossa vida.
Tem que se preparar, ceder, abrir espaço, oferecer, renunciar. A inquietação nasce da paciência. A criatividade nasce de uma porta fechada.
É um extremismo terrorista. Explodiremos civis.
Durante algum desentendimento, mobiliza-se a genealogia da imaginação para escandalizar de novo. Carro de som, helicóptero, arranjos suicidas pela janela. Não é permitido ficar quieto, parado, para conversar a respeito. A conversa demora.
No namoro, não existe como ser egoísta. Egoísmo se deixa na portaria. É pensar pelo outro, com o outro, como o outro.
É ter uma lista de compra de mercado na ponta da língua, junto com o chiclete de melancia: qual a pasta de dente que ela usa, o xampu, o condicionador, o azeite, o leite que toma, o suco... Desconhecer a geladeira da namorada é passagem direta para o congelador.
É entrar numa livraria e pensar no livro que ela vai gostar, é entrar numa loja e pensar um vaso que combinaria com sua sala, é entrar no cemitério e sonhar com um mausoléu para a família, sim, planejar a morte junto - nada mais romântico.
É entrar em si mesmo e lustrar as memórias mais distantes para parecer orfão antes de sua chegada.
Fabrício Carpinejar
“Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou”
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Imagem de Carrie Vielle
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total
À agitação do mundo irreal
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora
E na face incompleta do amor. Irei beber a luz e o amanhecer
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem de Armand point
Simplicidade é isso: Quando o coração busca uma coisa só.
Concerto para Corpo e Alma
Rubem Alves
Imagem de Antonio Nunziante
A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas:
com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer.
Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada.
Lya Luft
Imagem de Chelin Sanjuan Piquero
A noite estava linda e eu estava muito contente
Queria dançar, mesmo que fosse uma canção dolente
Daí você surgiu assim “puf” na minha frente, foi de repente
Pronto, nossa história começou com um olhar diferente
Em seguida fui apresentado ao teu nome diferente
O que na hora me deixou muito ridente
Era fato, estava conhecendo uma pessoa bem diferente
É verdade, já é sabido que as pessoas são diferentes
Mas entre todas elas, você é a mais diferente, sinceramente
O que é igual em você se torna diferente
Porque é igual pra você, só pra você, por isso latente
Pra você teu jeito é normal, legal, despojado, mas é claro sempre decente
Mas pra mim é muito mais, não sei simplificar, é diferente
Teu sorriso reluz e minha alma o traduz literalmente
É semente de paz, carinho, todo fulgor é paixão incandescente
E se meu peito a conduz e ao meu corpo seduz constantemente
É sinal que amor andava sozinho, coração tristonho todo carente
Brindamos, conversamos e nos beijamos finalmente
Estamos construindo uma relação passo a passo cuidadosamente
Pode-se até se dizer que estamos plantando uma semente
E depois de todo esse tempo ainda não se acha diferente?
Meu sentimento não se enganaria, estava na cara era evidente
Não precisei ser mago feiticeiro ou algo do tipo vidente
Você completou o que em mim simplesmente já estava ausente
E agora entende o porquê de ser tão diferente?
Bom, vou citar mais dois exemplos somente
Pra você seus braços são iguais aparentemente
Mas pra mim são muito mais, sem dúvidas, realmente
São abraços apertados, portas do céu, morada e recanto de divina patente
Outro exemplo é que no jardim de Deus, tu és a flor com o brilho mais luzente
E o aroma então, é incomparável, é ímpar, é o mais diferente
Mas pra você tudo é normal, pele e cor natural todo dia ou quase sempre
Por ser tão diferente é lógico que eu guardo e o quero para mim somente
Poderia continuar descrevendo como você é infinitamente
Explicando o quê e o porquê de ser tão diferente
Mas aí então você iria dizer: Que isso, que nada, você é que pensa!
E eu diria mais uma vez: Você é diferente sim, fez diferente e faz diferença.
Heleno de Paula
Imagem de Mihai Criste
Incontáveis são as vezes que penso escrever algo,
Que ao ser lido, soe de forma sutil aos ouvidos dos outros
Incansáveis noites foram e serão as que ainda o farei
Quando sou agraciado por elogios sinceros, mesmo que poucos
Pode-se até dizer que um objetivo alcancei
Mas o que fazer se não me sinto saciado
Transcrever o sentimento se fez necessário
Meu bálsamo curador, lenitivo, só eu sei
Esboço os traços da alma
Transformo lágrimas e sorrisos em letras
Meu verdadeiro amparo
É manter essa chama acesa
Oh! Amor puro me banhe com a sapiência
Inunde meu pensamento sem me tornar náufrago do ego, vide consequência
Quero conhecer o que é a vida
Percorrer seus caminhos de dentro pra fora
Finalmente aprender que a saída
Tem seu tempo, sua hora
Despertamos ao preenchermos as lacunas viscerais
Enigmático Eu, sejas sempre a chave mestra dessa viagem contínua,
Não a tranca que aprisiona os ideais
Não quero analisar as pessoas
Não vejo o que está à minha volta
Nem sempre a visão é tão boa
Quando se olha por trás da porta
Quero descobrir como sair de dentro de mim
Estou preso, mas o interessante é que não tenho medo
No passado até tive sim!
Evoluí sem segredo
Desmistifiquei as diferenças em meras formas de preconceito
Hoje mais solícito às convivências
Ganhei a paz que fez morada em meu peito
A capacidade de um indivíduo realizar qualquer coisa que realmente queira
Nos aproxima uns dos outros
Não é tese, lei ou simples besteira
Ideologia minha, enfim tampouco
Busco consolar meu coração sem me perder na razão
Alimentar as dores, ansiedades e desilusões com a doçura do lado positivo
Finalmente aprender o real sentido da existência nesse mundo
Contemplar a harmonia e extinguir o desgosto profundo.
Heleno de Paula
Imagem de Carrie Vielle
Improviso sem tradução...
Renasces
em cada sorriso envergonhado
e aprendes a gemer
como se em cada gemido
só viajasses através de ti
sem admitires tradução
não há dicionário de étimos
para a iniciação destes gestos
estamos sempre a improvisar
recriamo-nos eternamente.
Ademar
19.03.2006
Não me convides ao silêncio
grita-me aos ouvidos
para que todo o universo ouça
e não venhas devagar
salta breve sobre a ausência
como se o tempo voasse
há uma harpa que escorre das tuas mãos
pedindo um arco impossível
digo-te
a música é anterior
a todos os instrumentos
a todas as escalas
a todas as partituras
respira simplesmente contigo.
Ademar
10.04.2007
Dir-te-ei todos os dias que me fazes falta mas conseguirei algum dia significar-te a falta que me fazes?
Ademar