"Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
...
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram. "
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Lunalva
Se quiserem saber quem sou
- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente
Se quiserem saber do meu destino
- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada
Se quiserem saber donde venho
- Não sei donde venho.
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas
Não
Não me amem tão depressa
Não me compreendam tão depressa
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão quotidiano
O pão que trago comigo
- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão-de beber
Do Fogo e do Sangue
Carlos Nejar
Os adjectivos estão velhos.
Um dia pensarei,
fui verso onde os pássaros soletravam árvores.
Valem-me as frases que amparadas no açúcar
atravessam o tempo.
As pernas já não são rios que procuram as ruas
para o corpo se escrever.
Subo o Chiado.
Ao fundo, guindastes respiram os barcos
e o Tejo é um país com palavras esquecidas.
Nas margens, as embarcações
recordam os verbos que usavam panamá.
Tudo está diferente.
As pessoas não rimam.
Têm os nomes escondidos nas colinas
e as veias rasuradas.
Custa-me agora seguir a corrente
que chega a uma esplanada.
Tempos houve em que entrava na "Brasileira"
como se mergulhasse na poesia.
As cadeiras eram gramáticas
com homens sentados
e, nas mesas,
as folhas chamavam canetas.
Chego.
Sento-me.
Como mudou o mundo nos mesmos olhos.
Chamo o empregado.
"Por favor, uma chávena de sílabas".
Logo vinte pronomes proclamam o prurido,
"é um poema".
Só Pessoa numa estátua é celibatário.
Vou observando os homens,
parágrafos fétidos que matam dicionários.
Anoitece.
O empregado despeja um grito no balcão.
"a conta daquele poema."
Levanto-me.
Sou um texto de outros tempos.
Treme-me a prosa,
visto-lhe a gabardina.
Desço o Chiado.
Entro numa livraria.
Lá fora o vento agita a sintaxe
de quem nada tem para ler.
Cansado silencio-me junto à estante.
Os dedos sorriem num livro,
"Confesso que vivi".
Para os que não tocaram o meu sangue,
serei sempre um poema com Alzheimer.
Alberto Pereira
sábado, 2 de novembro de 2013
Saudade!
Saudade!
Sinto. Sinto saudades sim... Ela às vezes fica imensa... Vai invadindo toda a minha alma como se fosse só dela e vivesse para servi-la...Dominando-me aos poucos...lenta e suavemente...como se jamais quisesse me maltratar...Faz-se repleta de tolerância e vou acostumando-me à sua companhia...à sua amizade...aos seus momentos e aos seus apelos...Aprendemos com muito sacrifício a nos suportar...nas manhãs de nosso viver...e nessa convivência...até sublime...eterna... vamos consumindo-nos como se dependêssemos uma da outra para estar...para ser...para viver...de mãos dadas na busca... nem sei de que...nem sei... porque...por quê ?
daquele olhar...?
Ah! que saudade tenho...do tudo quanto mantenho dentro de mim...Saudade daquele primeiro medo...que quase me consumiu...Saudade depois...dos “segundos” medos que jamais tiveram fim...Das inseguranças que com eles vieram e que se estabeleceram para manter-me em vigília constante...procurando outra ...vida...aquela que tive e que era virgem de lembranças...de medos e de saudade...
Oh Céus! Como tenho saudade de gente...de pessoas que me embalaram a vida e que comigo brincaram no carrossel da alegria...no giro da felicidade! Tenho saudade daquela ilusão... de que todos tinham bom coração...que todos se queriam bem e que todos se amavam...Saudade grande...do sonho que tinha em relação às pessoas...e que se perdeu...pelos caminhos dos desencontros...que se consumiu com a vida...nas cinzas da existência...sonhos desfeitos...
uma saudade que veio...rondando a porta do coração e que sem pedir...ali se acomodou...
Só saudade...saudade e só !
José Luiz Pereira de Godoy
“Anda o Sol na minha rua”
O sol está dentro de cada um. Sorrir e acreditar em si
é o caminho para alcançar a luz e o brilho que irradia da própria existência
e acalenta a crença em nós mesmos. Acreditemos no próprio sol,
ele mora no “eu” e ilumina o tudo e o todo.
A gargalhada é o sol que varre o inverno do rosto humano."
Victor Hugo