domingo, 5 de janeiro de 2014

PODE NEM SEMPRE SER ASSIM

 

Trovão
pode nem sempre ser assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus dedos fortes e meigos cingirem
o seu coração, como o meu em tempos não muito distantes;
se na face de outro os teus suaves cabelos repousarem
nesse silêncio que eu sei, ou nessas
palavras sublimes e estremecidas que, dizendo demasiado
ficam desamparadamente diante do espírito vozeando;
se assim for, eu digo se assim for –
tu do meu coração, manda-me um recado;
que eu posso ir junto dele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.
Então hei-de voltar a cara, e ouvir um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.
Edward Estlin Cummings

"Despedida"

Floriada

Olha-me,
É silêncio de amor, que o tempo guarda e sente
Ouve-me, quando olho para ti,...
Na minha voz vive o vento, revoltado com a despedida, sou chão sem terra, seca desta utopia, anseio o toque da verdade, sim, da tua verdade escondida
Sente-me,
Quando a boca é um sorriso, a alma cala o interior que me esconde e morta por dentro, continuo viva, sonho, insisto em sonhar, mas a realidade são caminhos separados, esgotados de esperar
Não me abraces, que me perco num triste abandono, não me beijes, o corpo adormecido, está hoje congelado pela frieza da distância sem sentido, chora o nosso outono
(sem quimeras nem ternura, grita o teu nome)
Trago em mim, o coração desfeito
E nada, nada, nada, é caricia, sol, alegria no meu peito
Hás-de pensar em mim num breve dia
(mas tão longe amor, estarei dessa magia)
E serei sombra do passado, dor do teu presente
(saudade lado a lado)
Sim...é mesmo um adeus e rezo, bebo a esperança com coragem

Paula OZ

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A noite abre meus olhos

Caminhei


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Nascemos, nascemos, nascemos

Antes

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos.
Nascemos muitas vezes ao longo da infância
quando os olhos se abrem em espanto e alegria.
Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca.
Nascemos na sementeira da vida adulta,
entre invernos e primaveras maturando
a misteriosa transformação que coloca na haste a flor
e dentro da flor o perfume do fruto.
Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados.
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar.
Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas.
Nascemos na prece e no dom.
Nascemos no perdão e no confronto.
Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra.
Nascemos na tarefa e na partilha.
Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos.
Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

História

A presença mais pura
Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores...
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Distante

 

 

 

 

 

 

Jardim (2)