domingo, 24 de março de 2013

Príncipe

Francois Fressinier (8)

Príncipe:

Era de noite quando eu bati à tua porta

e na escuridão da tua casa tu vieste abrir

e não me conheceste.

Era de noite

são mil e umas

as noites em que bato à tua porta

e tu vens abrir

e não me reconheces

porque eu jamais bato à tua porta.

Contudo

quando eu batia à tua porta

e tu vieste abrir

os teus olhos de repente

viram-me

pela primeira vez

como sempre de cada vez é a primeira

a derradeira

instância do momento de eu surgir

e tu veres-me.

Era de noite quando eu bati à tua porta

e tu vieste abrir

e viste-me

como um náufrago sussurrando qualquer coisa

que ninguém compreendeu.

Mas era de noite

e por isso

tu soubeste que era eu

e vieste abrir-te

na escuridão da tua casa.

Ah era de noite

e de súbito tudo era apenas

lábios pálpebras intumescências

cobrindo o corpo de flutuantes volteios

de palpitações trémulas adejando pelo rosto.

Beijava os teus olhos por dentro

beijava os teus olhos pensados

beijava-te pensando

e estendia a mão sobre o meu pensamento

corria para ti

minha praia jamais alcançada

impossibilidade desejada

de apenas poder pensar-te.

São mil e umas

as noites em que não bato à tua porta

e vens abrir-me

Ana Hatherly

Imagem de Francois Fressinier

sábado, 23 de março de 2013

Me encantam teus olhos que brilham

Gianni Strino-6

 

Me encantam teus olhos que brilham
Tuas suaves mãos que me acalantam,
Teus traços bem feitos onde trilham
Meus doces beijos que te encantam.

E tua voz murmurando em meu ouvido
Faz minha pele todinha se arrepiar,
Sabes que esta vida não teria sentido,
Se eu fosse proibida de te amar.

E me flagro com teu rosto em minha mente
Alternando tuas palavras em meus pensamentos,
Lembro-me cada verso, cada semente
Semeada em nossa alma em todos os momentos.

E, pudesse eu, cantaria agora ao mundo,
Que te amo e que este amor é tão bonito!
Registaria em todo canto, a cada segundo,
Maior que o meu amor, nem mesmo o infinito!
Ivone da Conceição R. Carvalho

Imagem de Gianni Strino

Atravessa os caminhos da noite

David Inshaw

Atravessa os caminhos da noite
e vem.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
Atravessa os campos da noite
e vem.
Luísa Dacosta

Imagem de David Inshaw

Somos apenas o universo

Arthur Braginsky

Somos apenas o universo
como ele nos é. À noite cato estrelas
no teu corpo e as carícias que me vestem
são cúmplices da água.
Mastigamos o solo na erva que nos pasta
e espalhas sobre mim gotas de mar.
Com água em rocha, flexível e exacta,
entras na minha pele, maré a encher.
Só temos asas porque temos corpo.
... Anjos de nós, é rés do solo que
a música nos despe nas alturas.
Tão ágeis como figuras do Kamasutra.

Rosa Alice Branco 

Imagem de Arthur Braginsky 

Entraste na casa do meu corpo

Ennio Montariello-2

Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe.
O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.

Casimiro de Brito

Imagem de Ennio Montariello

quinta-feira, 7 de março de 2013

“Que o presente é uma semente do futuro.”

Quando o tempo for remendo,
Cada passo um poço fundo
E esta cama em que dormimos
For muralha em que acordamos,
Eu seguro
E o meu braço estende a mão que embala o muro.
Quando o espanto for de medo,
O esperado for do mundo
E não for domado o espinho
Da carne que partilhamos,
Eu seguro.
O sustento é forte quando o intento é puro.
Quando o tempo eu for remindo,
Cada poço eu for tapando
E esta pedra em que dormimos
Já for rocha em que assentamos,
Eu seguro.
Deixo às pedras esse coração tão duro.
Quando o medo for saindo
E do mundo eu for sarando
Dessa herança eu faço o manto
Em que ambos cicatrizamos
E seguro.
Não receio o velho agravo que suturo.
Abraços rotos, lassos,
Por onde escapam nossos votos.
Abraso os ramos secos,
Afago, a fogo, os embaraços
E seguro,
Alastro essa chama a cada canto escuro.
Quando o tempo for recobro,
Cada passo abraço forte
E o voto que concordámos
É o amor em que acordamos,
Eu seguro:
Finco os dedos e este fruto está maduro.
Quando o espanto for em dobro,
o esperado mais que a morte,
Quando o espinho já sarámos
No corpo que partilhamos,
Eu seguro.
O que então nascer não será prematuro.
Uníssonos no sono,
O mesmo turno e o mesmo dono,
Um leito e nenhum trono.
Mesmo que brote o desabono
Eu seguro,
Que o presente é uma semente do futuro.

Samuel Úria e Márcia

quarta-feira, 6 de março de 2013

“Se o mundo é só um espelho do que eu valho, então trabalho-o, Definho o grilho velho que ainda escolho quando falho. Se o mundo é só a mágoa com que meço, então despeço-o E regresso ao troço estreito exterior ao Universo.”

Forasteiro

Se o mundo é uma pedra de tropeço, eu arremesso-o
E ofereço a esfera ao espaço, está suspenso o meu apreço.
Se o mundo me merece tanta prece, nem por isso
A mundos dou interesse, nem a crises dou acesso.

Se o mundo é uma bolha de lamento, eu arrebento
E tento não estar dentro se se encontra em pronto pranto.
Se o mundo não demora, que a agrura morra agora
E eu choro com quem chora pra os pescar do mundo fora.

Não não não tenham medo
Que o mundo foi vencido
E eu sou aliado.

Não não não tenham mundo
Que o medo foi criado
E eu sou doutro lado.

Se o mundo é só um espelho do que eu valho, então trabalho-o,
Definho o grilho velho que ainda escolho quando falho.
Se o mundo é só a mágoa com que meço, então despeço-o
E regresso ao troço estreito exterior ao Universo.

Tresmalho o rebanho,
Aqui eu sou estranho.
Minha marcha é recta;
A vida é rotunda.
O que não me afecta
Já não me afunda.

Não não não tenham medo
Que o mundo foi vencido
E eu sou aliado.

Não não não tenham mundo
Que o medo foi criado
E eu sou doutro lado.

Samuel Úria